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Artigo: Cuidar - Um Olhar Hospitaleiro

CUIDAR – UM OLHAR HOSPITALEIRO

O nosso Modelo Assistencial Hospitaleiro visa uma assistência integral, “baseia-se no respeito pela dignidade da pessoa, considerada na sua unicidade e globalidade” (HSCJ, 2010, p.63). É nesta primícia que se fundamenta o nosso estilo de cuidar.

Trabalhar numa unidade que se dedica ao tratamento e reabilitação de pessoas com défices cognitivos relacionados com processos demenciais, implica por parte do profissional acreditar no potencial que cada pessoa tem dentro de si. Perceber que não é por estar categorizada com um diagnóstico de um défice cognitivo, que a pessoa deixa de ter opinião, ter gostos, ter sonhos. É proporcionar-lhe oportunidades de escolher, de ter objetivos na vida e poder concretizá-los. Ajudar a pessoa a melhorar a sua qualidade de vida transmitir-lhe que é possível viver com satisfação e esperança apesar das limitações causadas pela doença (Anthony, 1993). É aprender a “apreciar mais os processos do que os resultados, mais os caminhos do que a meta, mais a navegação do que a chegada ao porto” (HSCJ, p. 27). Como salienta Deegan (1996) não podemos deixar que os nossos corações se tornem insensíveis relativamente às pessoas que têm problemas de saúde mental. O nosso papel não é julgar quem vai ou não recuperar. O nosso trabalho é criar ambientes onde existem oportunidades para o recovery (recuperação pessoal) e o empowerment.

No cuidado à pessoa com défice cognitivo a escuta surge como uma aptidão crucial porque “todo o ser humano tem necessidade de se sentir importante aos olhos dos outros. O estado de vulnerabilidade provocado por um problema de saúde aumenta de tal forma no cliente esta necessidade, que só uma escuta atenta, por parte da enfermeira o pode satisfazer. O tempo investido na escuta nunca é tempo perdido” (Lazure, 1994,p.16). A comunicação nem sempre é fácil porque comunicar com uma pessoa em perda de autonomia no plano cognitivo não é simples, no entanto, estes sujeitos que sentem que tudo se lhes escapa, têm necessidade de saber (…) que um laço os une aos que estão à sua volta, de perceber de forma clara que são escutados e entendidos”(Phaneuf, 2005, p. 540).

Na pessoa com um défice cognitivo num estadio já muito avançado, a comunicação não-verbal é muitas vezes a única forma de interação possível.Olhar, tocar a pessoa assistida é manifestar-lhe atenção, o toque impregnado de compaixão é um meio de comunicação poderoso. Compaixão que como refere Mendonça (2017) “é essa peculiar relação humana que começa aí, quando precisamos de cuidado e somos positivamente correspondidos por uma presença amigável” (p.51). Por vezes limitamo-nos a segurar-lhes a mão e permanecemos em silêncio “porque os cuidados de enfermagem são assim, (…) uma imensidão de «pequenas coisas» que dão a possibilidade de manifestar uma «grande atenção» ao beneficiário de cuidados (…) ao longo das vinte e quatro horas do dia” (Hesbeen, 2005,p.47). De facto “o grito do que sofre chega-nos frequentemente sem palavras: o silêncio indefeso diz tudo, estando a vida mais nua ainda do que é habitual, o olhar ferido pela adversidade. A compaixão torna-se escuta, consonância, responsabilidade, escolha solidária, gestos, permanência” (Mendonça, 2017, p. 51).

É destes sentimentos que se impregna o nosso servir em hospitalidade porque “uma pessoa vale mais do que o mundo inteiro” (Bento Menni,1892) e “o estabelecimento de uma comunicação sincera e profunda com uma pessoa doente em sofrimento (…) traz um sentimento de apaziguamento e de satisfação do trabalho bem realizado” (Phaneuf, 2005, p. 187).

Ir. Elisabete Canada

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- Anthony, W. (1993). Recovery from mental illness: the guiding vision of the mental health service system in the 1990s. Psychosocial Rehabilitation Journal, 16 (4), 11-23.

- Deegan, P. (1996). Recovery as a journey of the heart. Psychiatric Rehabilitation Journal. 19 (3), 91-97.

- Hesbeen, Walter, (2000) – Cuidar no Hospital: Enquadrar os Cuidados de Enfermagem numa Perspectiva de Cuidar. Loures: Lusociência - Edições Técnicas e Cientificas, Lda

- HSCJ (2006). Missão Hospitaleira, Boa Notícia. Documento do XIX Capítulo Geral. Roma: ARTEGRAF, S.A. 

- HSCJ (2010). Carta De Identidade Da Instituição. Roma: ARTEGRAF, S.A. 

- Lazure, H. (1994). Viver a Relação de Ajuda: abordagem teórica e prática de um critério de competência da enfermeira. Loures: Lusodidacta.

- Phaneuf, M. (2005). Comunicação, Entrevista, Relação de Ajuda e Validação. Loures: Lusociência. Edições Técnicas e Cientificas, Lda.

- Mendonça, J. T. (2017). O pequeno caminho das grandes perguntas. Lisboa: Quetzal Editores.



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